Tendência: IA aplicada à gestão escolar

78% dos estudantes do ensino médio já usam IA generativa para estudar, mas apenas 32% receberam orientação da escola sobre isso, um descompasso que redes estaduais brasileiras e países como Estônia, Singapura e Coreia do Sul já enfrentam de formas distintas. Neste artigo, mapeamos cinco experiências estaduais em curso no Brasil e o que a experiência internacional ensina sobre acertos e recuos. O padrão que se repete: IA funciona quando apoia, nunca substitui, o julgamento de professores e gestores. A pergunta que fica é como sua rede está estruturando essa governança.

21/07/2026

Setenta por cento dos estudantes do ensino médio brasileiro já usam inteligência artificial generativa para estudar. Entre os professores, o número chega a 58%. Os dados são do Cetic.br/TIC Educação 2024. No mesmo levantamento, apenas 32% dos estudantes afirmam ter recebido alguma orientação da escola sobre como usar essas ferramentas. 

A pergunta que interessa agora 

O uso de IA já é realidade em salas de aula de todo o país, entre estudantes e professores. Diante desse cenário, a pergunta que resta às redes de ensino é: quem acompanha, forma e constrói critérios para esse uso? 

Cinco redes estaduais, cinco respostas em construção 

Em São Paulo, a Seduc-SP conduz um piloto de correção de questões dissertativas com IA na plataforma Tarefa SP, apoiando o trabalho de professores na devolutiva aos estudantes. No Ceará, o programa FormaCE, da Seduc-CE em parceria com a Seplag-CE, forma professores para o uso de IA em sala de aula e conta com um agente de correção de redação no modelo Enem. A rede também usa IA para sinalizar risco de evasão escolar.

Em Minas Gerais, a SEE/MG tem investido em ferramentas digitais para a rede estadual e aplicado IA em processos administrativos. Um exemplo, dentro dessa mesma frente, é o uso pedagógico da tecnologia: a plataforma Enem-MG, desenvolvida pela Estudo Play, usa IA para ler redações manuscritas — fotografadas pelo próprio estudante — e apoiar o professor organizando a redação de acordo com as cinco competências avaliadas no Enem, sem atribuir notas ou julgamento por competência, agilizando o processo de análise. A avaliação e a atribuição da nota final são sempre feitas por corretores humanos especializados.

No Rio de Janeiro, a Seeduc-RJ oferece o Professor IA na plataforma e-Rio: uma IA treinada nos conteúdos das obras adotadas pela rede, com mediação de professores em todas as etapas de uso. Em Goiás, a Seduc-GO lançou, em parceria com a FGV, um Guia Pedagógico de IA para orientar escolas e educadores, e disponibiliza o Professor IA na plataforma Eureka, com foco em reduzir a distorção idade/série. 

O que outros países mostram 

Na Estônia, o programa AI Leap combina investimento público e privado e alcança, na primeira fase, cerca de 20 mil alunos e 3 mil professores, sempre com uso mediado por educadores. Em Cingapura, a abordagem é faseada e segue o princípio human-in-the-loop. O país estruturou um Ethics Framework com quatro princípios: Agency, Inclusivity, Fairness e Safety

No Reino Unido, uma orientação oficial do Department for Education, publicada em 2025, estabelece que a IA deve “aumentar, e não substituir, o ensino”. Na Finlândia, o letramento em IA é trabalhado desde a educação infantil, com atenção específica à equidade entre estudantes de áreas rurais e urbanas.

A Coreia do Sul lançou, em 2025, os AI Digital Textbooks, livros didáticos com inteligência artificial integrada. Quatro meses depois, o país recuou a iniciativa: professores e famílias apontaram imprecisões no conteúdo, riscos à privacidade dos estudantes e sobrecarga de trabalho docente. A adoção caiu de 37% para 19% das escolas. O episódio mostra um sistema maduro o suficiente para ouvir professores e famílias e ajustar o próprio ritmo de implementação. 

O padrão que conecta todos os casos 

Do Ceará à Estônia, de Minas Gerais a Cingapura, um padrão se repete nas experiências que funcionam: a IA aparece apoiando a decisão de professores e gestores, agilizando processos e sinalizando informações, sempre ao lado do julgamento humano. 

As secretarias estaduais brasileiras já demonstram, na prática, que a adoção de IA na educação pública é uma construção interna, feita de testes, formação e ajustes de rota. A pergunta que fica para gestores de todo o país é como consolidar essa construção: como estruturar governança, formação docente contínua e canais de escuta de professores, estudantes e famílias em torno do uso de IA.